Alexandre Moschini

Desaparecidos RS – A Tecnologia a Serviço da Vida

1. O Cenário de 2024: O Peso da Memória
Em 2024, vivemos uma catástrofe que testou os limites do nosso estado. As enchentes devastadoras inundaram cidades, estradas e casas em uma dimensão nunca vista em nossa história. Nem mesmo a inundação histórica de 1941 servia de comparação; o que enfrentamos foi um trauma sem precedentes.
As notícias — na TV, no YouTube, nos jornais — nos traziam imagens de um Rio Grande do Sul submerso. E, estarrecidos, revivíamos aquele sentimento de impacto social e desolação que havíamos sentido poucos anos antes, na pandemia. O medo era o mesmo, mas a urgência era física, imediata.

2. O Caos e a Busca Desesperada - As pessoas buscavam desesperadamente por parentes e amigos que, de uma hora para outra, sumiram no meio das águas. Sem sinal de telefone, sem internet em muitas áreas, o contato cessou. O que se podia fazer?
Iniciativas começaram a surgir: grupos de resgate se organizavam de forma heroica e voluntários tentavam cruzar bases de dados coletadas manualmente em abrigos. Mas o caos imperava. Analisando essas iniciativas, percebi que havia espaço para uma abordagem mais direta e ágil, algo que pudesse ser alimentado pelos próprios familiares em busca de seus entes.

3. 24 Horas para Agir - A ideia me atingiu como um raio no meu primeiro dia de férias da Dell, em uma segunda-feira. Acordei às 4 da manhã com uma convicção absoluta. Mandei mensagem para um grande amigo e sócio de longa data: Humberto Garotti. Que concordou imediatamente com a ideia.
O site Desaparecidosrs nasceu ali, sob o conceito mais puro de MVP (Mínimo Produto Viável). Cada minuto perdido poderia significar uma vida a menos ou um reencontro a menos. Trabalhamos sem parar. O projeto foi desenhado, desenvolvido e publicado em apenas 24 horas. A premissa era simples e poderosa: cadastros, Inseria os dados da pessoa desaparecida e a última localização, seu contato. Em resumo um mural público apresentava as fotos para que qualquer pessoa na comunidade pudesse ajudar.

4. O Resultado Final - Ao todo, mais de 70 pessoas foram cadastradas em nossa plataforma. Ao final de todo o esforço, todas foram encontradas. Dessas, felizmente (se é que podemos usar essa palavra), apenas duas pessoas foram localizadas sem vida. Mas entendemos que, mesmo nesses casos trágicos, era vital dar uma resposta à família. Informar o "encontrado, mas sem vida" era dar a dignidade de um fechamento, uma satisfação a quem esperava.

5. A Grande Lição: UX Design e Humanidade - Para encerrar, quero deixar uma lição fundamental de UX Design e de vida: não espere pela ideia perfeita para colocá-la em prática. Muitas vezes, no nosso dia a dia profissional, nos perdemos em refinamentos estéticos, testes A/B intermináveis e discussões de arquitetura. Mas a perfeição pode ser a maior inimiga da utilidade. Se tivéssemos esperado o design ideal, o fluxo perfeito ou a aprovação de terceiros, aquelas 70 famílias teriam ficado mais tempo no escuro.


Sobre a pessoa palestrante

Designer de Produto Sênior e especialista em Design Systems, com mais de 20 anos de experiência na criação de produtos digitais escaláveis e de alto impacto para organizações globais de tecnologia. Minha última atuação foi na Dell Technologies, onde liderei iniciativas dentro do Dell Design System, sendo responsável pela criação, evolução e governança de componentes e fundamentos que suportam múltiplos times de produto.

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