Ariel Morais
Designer de si mesmo: o que a transição de gênero me ensinou sobre iterar sistemas complexos
O tempo nunca passou tão rápido. Embora essa frase seja um clichê de décadas, em 2026 ela é a nossa realidade palpável, moldada por IAs e fluxos de trabalho fragmentados. No entanto, esta palestra não é sobre algoritmos, mas sobre algo mais cru, orgânico e complexo em sua origem: a experiência de ser o designer de si mesmo. Enquanto o mercado discute a automação, proponho um retorno ao "eu" como o sistema mais sofisticado que um designer pode projetar. Quando a transição de gênero se torna o projeto principal, o distanciamento entre "designer" e "usuário" desaparece, revelando que a mudança de storytelling de uma vida inteira pode ser o desafio supremo de UX.
Quero explorar como o processo de transição de gênero mimetiza os maiores projetos de design que enfrentamos profissionalmente. Imagine gerenciar um "cliente" que é, ao mesmo tempo, teimoso, sem filtros e que dorme com você todas as noites: você mesmo. Através da metáfora de um "freela de vida", a ideia é discutir a definição de requisitos existenciais, o teste de hipóteses (nomes, pronomes, expressões) e o ajuste constante de um roadmap que enfrenta impedimentos sistêmicos reais. Ser um "protótipo vivo" nos treina, de forma visceral, a navegar por sistemas rígidos da burocracia estatal aos formulários de cadastro, desenvolvendo uma maestria em identificar falhas de experiência que a maioria dos designers não percebe.
Ao final, o objetivo é mostrar que a coragem de cultivar uma nova identidade nos prepara para não temer o erro em projetos corporativos, pois já sobrevivemos a iterações muito mais críticas. Mais do que resistir a um mercado em transformação, a vivência trans ensina a ressignificar a própria prática, transformando cicatrizes de processos falhos em insights de design inclusivo. Entenderemos que não precisamos nos moldar a um mercado obsoleto, podemos criar nossos próprios espaços, compreendendo que o design mais potente é aquele que nasce da necessidade de reinventar a própria existência para, finalmente, florescer com autonomia.
Sobre a pessoa palestrante
Iniciei minha trajetória na Psicologia (UFSC) antes de me graduar em Design pela mesma instituição, unindo o estudo da mente à criação de produtos digitais. Hoje sou Designer de Interação no CESAR há 4 anos, depois de passar por experiências em projetos de impacto social atrelado a instituições de ensino (UFRJ, UFSC).
