Daniela França

Se não vemos referências negras no design, o que estamos aprendendo?

Durante a minha formação em design, uma percepção começou a me incomodar, pois eu não me sentia pertencente ao campo que estava aprendendo a construir. Ao olhar com mais atenção para as referências que orientavam esse aprendizado, percebi que muitas delas eram apresentadas como universais e neutras, mas, na prática, seguiam um padrão recorrente marcado pela predominância de autores e perspectivas europeias. Foi a partir dessa inquietação que surgiu a pergunta que orienta esta palestra: o que estamos aprendendo quando aprendemos a projetar sem a presença de referências negras no design?

Para investigar essa questão, analisei o currículo da ESDI/UERJ, com vigência iniciada em 2017, e identifiquei que, entre os 328 autores presentes nas bibliografias das disciplinas, apenas 3 são negros. Ao evidenciar essa predominância, ampliei a análise com um questionário aplicado a designers de diferentes estados, cujos resultados indicam que a maioria dos profissionais também não teve contato com referências negras ao longo de sua formação. Mais do que apontar uma ausência, esses dados revelam como o repertório que sustenta nossas decisões projetuais é construído de forma limitada e como isso impacta diretamente o design de produtos e serviços.

A partir desses achados, a palestra articula a relação entre formação, repertório e prática, revisitando a história do design e dialogando com conceitos como racismo estrutural e institucional, a fim de compreender como essas dinâmicas se manifestam no campo. Ao trazer essa discussão para o contexto do UX, exploro como a ausência de determinadas referências influencia escolhas que muitas vezes passam despercebidas no cotidiano de quem projeta e, consequentemente, afeta a qualidade das soluções desenvolvidas. Em diálogo com o tema Design para Germinar e Regenerar, proponho não apenas refletir sobre quais repertórios estamos cultivando, mas também apresentar caminhos para ampliá-los na prática, seja na construção de referências, na revisão de processos ou na tomada de decisões mais conscientes no dia a dia. A proposta é sair do reconhecimento do problema e avançar para uma atuação mais intencional, capaz de contribuir para um campo do design mais diverso, crítico e regenerativo.


Sobre a pessoa palestrante

Daniela França é Designer formada pela ESDI/UERJ e certificada em Salesforce, com atuação em produtos e serviços digitais na NTT Data e experiência em projetos para empresas como Dasa, Prudential, Bradesco e Vivo.

Como pesquisadora, questiona as relações entre design e raça a partir da história e de seus impactos na prática contemporânea.

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