Melissa Streck
Mulheres no Top Layer: Regenerando camadas rumo ao protagonismo feminino
Apenas 15% dos cargos de liderança na área de tecnologia são ocupados por mulheres. Este dado reflete diferentes camadas que impactam as mulheres ao longo de gerações. Ao ouvir a história da tecnologia e recentemente da área de Experiência do Usuário, em geral os protagonistas são homens. Ou você lembra de ter ouvido falar em mulheres neste processo de emergências tecnológicas? Isto não significa que elas não existiram. Significa que, em desde muito cedo, elas estavam lá mas não tinham voz. Ada Lowelace, conhecida atualmente por criar o primeiro algoritmo no século XIX, teve seu trabalho minimizado e não reconhecido pelo fato de ser mulher. E ela foi apenas uma.
Na área de Experiência do Usuário existe em torno de 53% de mulheres dentre os profissionais de UX no Brasil, ocupando posições diversas. Este número resulta de uma construção histórica, quando na década de 2000 as mulheres começaram a ter mais protagonismo acadêmico em assuntos como pesquisa e usabilidade. Na década de 2010, começa a haver uma expansão das mulheres dentro de corporações, com o surgimento de mais demandas de trabalho com a proliferação de apps. A partir de 2020 ocorre uma aceleração das demandas e, consequentemente, aumento das mulheres para áreas diversas de UX.
Mesmo com toda esta caminhada das mulheres para dentro da área de tecnologia e UX, cargos de liderança ainda pertencem predominantemente ao universo masculino E aqui eu quero refletir sobre 3 camadas que contribuem para isto:
1) Camada cultural: aqui entra o protagonismo historicamente masculino, a autoridade técnica associada aos homens, as contribuições femininas invisibilizadas, a representatividade ainda limitada. Quando crescemos vendo poucos exemplos, internalizamos limites que nem sempre são nossos.
2) Camada social: a mulher ainda é tida como cuidadora da casa, dos filhos, da família. Possui uma dupla jornada que gera uma carga mental imensa. Enquanto os homens podem construir trajetórias lineares, muitas mulheres precisaram negociar tempo e energia constantemente para dar conta de todas as demandas.
3) Camada biológica: mulheres possuem um corpo cíclico dentro de um sistema produtivo linear, tendo oscilações hormonais que impactam energia e foco, além de pausas pela maternidade que alteram o ritmo de carreira e o período da menopausa que impacta o físico e a cognição. As estruturas corporativas originais não foram desenhadas considerando essa realidade.
A partir destas camadas, e pensando nas conquistas que as mulheres tiveram ao passar de gerações, deixo a reflexão para que possamos encorajar mulheres a ocuparem seus espaços na tecnologia que nos desafia a cada dia com suas novidades. Como podemos permitir que mulheres das novas gerações, mesmo lidando com todas as camadas impostas, sigam se beneficiando com conhecimentos e oportunidades melhores. Se hoje estamos germinando o protagonismo feminino na área de Tecnologia e UX, que em breve possamos vê-lo regenerado e verdadeiramente equalizado.
Sobre a pessoa palestrante
UX Research Lead na Dell Technologies. Doutora em Comunicação pela PUCRS, com pesquisa dedicada à experiência do usuário 60+. Professora convidada em cursos de pós-graduação e extensão diferentes instituições. Sua formação inclui mestrado em Design (UFRGS), especialização em Design de Produtos (ULBRA) e graduação em Publicidade e Propaganda (Unisinos). Possui trajetória profissional anterior em instituições como Tecnopuc Crialab, Ubilab (Globo.com), SAP, Terra Networks e agências de publicidade.
