Natália Grein

O que designers não entendem sobre usuários autistas

Grande parte da conversa sobre acessibilidade em produtos digitais ainda se concentra quase que exclusivamente em barreiras visuais ou motoras. Apesar de essas dimensões serem, sim, essenciais, elas deixam um pouco de lado um campo igualmente importante: a acessibilidade cognitiva. Pessoas autistas, por exemplo, interagem com interfaces, linguagem e fluxos de decisão de maneiras que muitas vezes não foram consideradas durante o processo de design. Dito isso, ao longo da minha trajetória, comecei a perceber que muitos comportamentos que equipes de produto classificam como "uso inesperado", "erro do usuário" ou ainda "caso de borda" são, na verdade, respostas bastante previsíveis a sistemas que pressupõem uma só forma de perceber e processar informações.

Por causa disso, nessa palestra, gostaria de não só partir de uma perspectiva dupla (minha experiência profissional enquanto designer e minha vivência pessoal como autista), mas também compartilhar exemplos concretos de como pequenas decisões de design podem criar sérias barreiras cognitivas para pessoas neurodivergentes. Ambiguidade em microcopies, excesso de estímulos visuais, etapas pouco previsíveis ou instruções implícitas podem transformar a tarefa mais simples em uma experiência bastante exaustiva para quem não processa informação de uma maneira padronizada.

Assim, mais do que propor "interfaces especiais para autistas", a ideia é convidar o público a ampliar o repertório de projeto para conteúdos digitais. Quando consideramos usuários que processam informações de maneiras diferentes, muitas decisões de design passam a ser repensadas e curiosamente, quando um produto se torna mais claro para pessoas autistas, ele quase sempre melhora para todo mundo. A pergunta que guia a palestra é simples, mas importante: quando falamos em "usuário médio", de quem exatamente estamos falando? E quem está ficando de fora dessa definição?


Sobre a pessoa palestrante

Comecei a trabalhar com Product Design aos 19 anos. Desde cedo, desenvolvi afinidade por acessibilidade digital e liderança e, após receber meu diagnóstico de TEA (na infância ainda chamado de Síndrome de Asperger), passei a atuar voluntariamente na conscientização sobre autismo por meio de palestras. Já alcancei mais de 2.000 pessoas em eventos nacionais e internacionais, mas precisei pausar essa atividade para lidar com um tumor.

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