Vanessa Improta

Quando a IA Falha no Afeto: O Papel Insuperável da Vulnerabilidade no UX Research

Quero começar falando da minha vulnerabilidade. Já fiz algumas apresentações, mas ainda sinto um certo nervoso ao pensar em falar para tantas pessoas diferentes da comunidade. Imagino se vou gaguejar ou esquecer algo, e se todos vão perceber. Mas, se acontecer, será realmente um risco? Será ruim mostrar que sou humana e que tenho meus medos e receios? Brené Brown, em *The Power of Vulnerability*, afirma que a vulnerabilidade é o **coração das emoções e dos vínculos humanos**, e que é essa abertura que permite **conexão, coragem, criatividade e amor**. Ou seja, são justamente nossas vulnerabilidades que nos fazem humanos e nos conectam ao coletivo.

Eu poderia falar sobre I.A. e futuro do trabalho, mas escolhi abordar relações humanas. Não existe design sem usuário, e não existe usuário sem contexto. Enquanto as I.A.s e a tecnologia ganham destaque, também vemos um distanciamento das relações genuinamente humanas, do olho no olho, do contato e do acolhimento.

Vivemos em uma era onde o que for mais rápido, imediato e perfeito é o ganha a nossa atenção, e tudo o que tem atenção cresce. Em contrapartida a paciência é reduzida e impacta em diferentes cenários. Será que ainda temos tempo e disposição para escutar? Será que as empresas realmente querem que escutemos? Muitas vezes, o usuário é esquecido para que os negócios avancem em ritmo acelerado.

Assim, projetos se formam e pesquisas se tornam menos profundas e menos comportamentais. O UX, que nasceu da observação e do estudo do comportamento humano, se perde e vira “marketing” para justificar que a empresa pensa nos clientes. Esconde botão, persuade usuário, dificulta a vida de quem usa em prol de impactos institucionais positivos. No dia a dia quando paramos, nos perguntamos se realmente estamos fazendo a diferença.

Segundo o artigo da Hallway AI, que compara entrevistas conduzidas por I.A. e por humanos, percebemos algo essencial: embora a I.A. seja eficiente em escala e tenha menos falhas, ela perde no rapport emocional, na leitura da linguagem corporal e na capacidade de explorar respostas inesperadas. Em pesquisas sensíveis que exigem construção de confiança, usar uma I.A. para reduzir esforço pode alterar significativamente na adesão final do produto, uma vez que ela não conseguirá estabelecer um vínculo emocional que o usuário precisa para se abrir de verdade.

Na minha trajetória profissional, atuando com temáticas complexas como crianças em refúgio, adolescentes com saúde mental fragilizada e educação antirracista, não consigo imaginar a I.A. extraindo dados realmente consistentes. Nada substitui a relação humana como elo de confiança para entender dores e motivações. Meu intuito com este texto é resgatar nossa essência como UX: nossa vulnerabilidade que nos aproxima do usuário.

A I.A. pode ser uma aliada valiosa e tem seu espaço no processo, mas não substitui o elemento humano. Para que seja realmente um ganho no projeto, sua utilização precisa ser estratégica e consciente.


Sobre a pessoa palestrante

No meu mestrado em Product Design em Lisboa, atuei com crianças refugiadas fazendo um produto para ajudar na adaptação delas em um novo país. No Brasil fiz parte de projetos educacionais como o Instituto Vini Jr., que leva a educação antirracista para escolas públicas, e do Instituto Felipe Neto, que visa a conscientização da importância da saúde mental na adolescência, projeto também associado a escolas públicas. Atualmente trabalho na Blip como Designer Conversacional UX.

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