Viviane Delvequio
Pra não dizer que não falei das flores… quando o assunto é gestão de pessoas em design
Como criar aquilo que máquina não cria se nos organizamos e nos cobramos como máquina e não como seres vivos e orgânicos que somos? Há mais ou menos 6 anos atrás entravam dois novos desafios na minha vida: gestão e plantas. Para não deixar ninguém morrer (entre o time e as plantas) mergulhava em livros, dicas e até cursos. E hoje posso dizer que muito insight sobre gestão tive foi cuidando de plantas. Diferente das pessoas, elas não negociam, não se adaptam à nossa expectativa e não performam sob pressão. Elas resistem porque elas respeitam quem são, só são capazes de existir assim. Assim, ou você entende a dinâmica delas, ou elas simplesmente não se desenvolvem. E isso me ensinou muito sobre como lidar melhor com pessoas e como criar ambientes onde as pessoas florescem e questionam o sistema criando novas histórias.
Trazendo alguns desses aprendizados. O primeiro é sobre tempo: cada ser vivo tem o seu ritmo, independente da nossa urgência. Não adianta acelerar processos naturais — o desenvolvimento acontece no tempo possível, não no desejado. Outro ponto é a alocação de recursos: plantas investem energia no que traz retorno real para sua sobrevivência. Elas deixam de lado o que não sustenta seu crescimento, adaptam tamanho de folhas, direção, esforço. Não há desperdício para atender estética ou expectativa externa — há foco. Terceiro ponto: cada planta demanda um tipo de cuidado específico. Algumas precisam de muita água, outras morrem com excesso. Algumas buscam sol, outras sombra. E isso não tem nada a ver com quem cuida, mas com a natureza de cada uma. O paralelo com as pessoas é inevitável: contexto, história e necessidades importam — e ignorar isso compromete qualquer tentativa de desenvolvimento.
Quero compartilhar o que aprendi ao liderar projetos que causaram mudanças, inovação e até desconfortos na empresa porque antes de tudo respeitei quem estava comigo no desafio. Como gestores, nem sempre controlamos o ambiente, mas temos influência sobre ele: podemos ajustar exposição, proteger, direcionar melhor os recursos e, principalmente, criar condições mais adequadas para cada pessoa se desenvolver. Como liderados, observar o quanto o ambiente apoia nosso crescimento é fundamental, principalmente porque, ao contrário das plantas, podemos nos movimentar até onde a luz é melhor pra gente.
Concluindo, esses foram só alguns exemplos, mas quero reforçar o quanto o observar a natureza funcionando é um exercício poderoso para repensar nossa atuação, especialmente em design, onde sensibilidade, contexto e criatividade são centrais. Em um sistema que valoriza velocidade e padronização, onde IA dá velocidade sem gerar nada de fato novo, respeitar o tempo das pessoas parece contraintuitivo — mas talvez seja justamente isso que esteja faltando e que possa ser o diferencial para o que entregamos como área.
Sobre a pessoa palestrante
Hoje atuo como UX Manager na Decolar, em projetos de expansão no Brasil. Ao longo de 20 anos em tecnologia, passei por empresas como Serasa, PicPay, PagBank, Globo e Samsung, sendo mais de 5 anos em gestão de times e áreas cross, com visão E2E de produtos. Formada em TI pela Unicamp, migrei para UX pelo interesse em pessoas. Minha experiência integra dados qualitativos e quantitativos para orientar decisões de produto e estratégia.
